Não pensei que o tempo do meu doutoramento fosse passar tão rápido. Parece que foi ontem que eu andava pela casa, ansiosa pelo resultado da seleção. Agora, já estou no terceiro semestre (1 ano e meio!) de minhas pesquisas. Acho que é exatamente agora que cai a fichinha e a gente sente a responsabilidade toda desse nosso árduo e encantador mundo das pesquisas.

Tenho amado cada minuto dessa experiência marcante e inesquecível. As disciplinas ainda não terminaram; tenho mais um semestre pela frente com, no mínimo, umas duas disciplinas para finalizar. Daí, será dedicação exclusiva ao meu idolatrado To the Lighthouse, apesar de as leituras específicas já terem começado desde o projeto. Minha orientadora disse uma vez que “devemos amar incondicionalmente a pesquisa que estamos desenvolvendo”. E é verdade, verdadeiríssima.
Às vezes, a falta de inspiração para a escrita é desperadora e a gente sente um buraco embaixo de nossos pés que parece não ter fim. Mas as leituras insistentes nos devolvem a caixinha dourada das melhores palavras e daí só precisamos utilizá-las bem, mexê-las, remexê-las, acrescentar um pouco de poesia, uma dose de subjetividade, pitadas de ironia, cápsulas de imagem. Sinto-me ansiosa e rechonchuda (culpa exclusiva dos chocolates, biscoitos, sorvetes..), introspectiva, solitária e, de certo modo, abandonada. O claustro acadêmico é assim, uma relação de nós conosco mesmo. Dá até medo passar o dia inteiro aqui trancada comigo mesma. Vejo como sou difícil, exigente, autocrítica, irritantemente organizada e pensativa. Tanto que, à noite, minha mente não desliga e fico imaginando, como a Lily Briscoe em relação ao quadro que está pintando, se eu não deveria “mudar todas as coisas de lugar”. A experimentação faz com que se perceba todas as posibilidades das coisas, e nos dá a chance de escolher a que for melhor, mais cuidada, mais adequada.
Eu gosto disso. Gosto de fazer experimentos, do quebra-cabeça de palavras e imagens e de imagens sem palavras, mas que “falam” por si só nos silêncios eloqüentes de cores azuis, de ondas que beijam a praia, do lighthouse que não me deixa perder o curso da tese, mesmo que de vez quando eu decida mergulhar no fluxo da minha própria consciência em busca da inspiração que decidiu tirar folga, sem ao menos ser feriado.