Sempre à deriva

2009 Setembro 21
by Rosangela

Os dias não tem sido fáceis por aqui porque, com a chegada do fim de ano, muita coisa começa a querer terminar e os prazos vão se estreitando. Acho que o Jon e eu ficamos enclausurados aqui em casa ao menos por duas semanas seguidas, com afazeres acadêmicos para ontem. Houve fins de semana que não coloquei a cara na rua, avalie o bloco. Tanto compromisso, tanto trabalho, tanto tudo acabou por tirar um pouco do ânimo de nossas rápidas fugidelas para respirar ares poluídos e comer besteiras. De quebra, ele ainda ganhou uma infecção na garganta e eu uma alergia a pólen, mas não consigo detectar a flor vilã mais próxima (notaram como aqui elas estão cada vez mais raras?!), porque flor no nordeste  nem de cactus.

À Deriva

Daí, decidimos corromper o fim de semana. Fomos ao cinema, na expectativa de relaxar mesmo e rir das conversas sem-futuro nas filas da frente e detrás de nós. De repente, todo mundo virou crítico de cinema, que graça! E apesar do zum-zum-zum de uma “crítica” muito desavisada e descomedida que sentou na fila detrás de nós, empanturrou-se de pipoca e de sei lá mais o quê e falou durante todo o filme, À Deriva nos tocou bastante. Fiquei pensando em como tudo está realmente à deriva na vida. Do que temos absoluta certeza? Vocês já tiveram a impressão de que de repente todos os terrenos se tornaram movediços? O que realmente é definitivo na vida? Muita gente poderia dizer que a morte o é, mas depois concordaria de que ela é muito mais inevitável do que definitiva, certo?

O novo trabalho do diretor Heitor Dhalia (de Nina e o Cheiro do Ralo) emociona pela certeza que temos de que não temos certeza de nada. A vida, as pessoas, a família e os sonhos de uma meninice tão suave se tornam, de repente, uma onda de mar que se dissolve na areia e tudo transforma. Diria a minha doce Cecília Meireles que “a realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”, palavras que poderiam descrever muito bem a Felipa (Laura Neiva), tão cheirosa, tão menina e tão mulher, enfrentando a transição para uma vida adulta em meio ao desmoronamento do casamento (que para ela é muito mais o desmoronamento do amor) dos pais. Felipa não compreende o que, no meio do caminho, ficou perdido. Para ela, uma parte muito pungente do livro que conta a história de sua família ficou em branco. E o que resta depois que as páginas em branco são arrancadas é a passagem para um novo capítulo, agora escrito por ela.

Adorei os silêncios do filme. Adorei a eloquência do não dito e a necessidade de aguçamento do olhar. Muito das emoções que estão dentro de nós são mesmo silenciosas e aplacadas pelos pés descalços na água, na terra granulada, na suposição de que o que segura o mar na Terra são os corais cor de turquesa, com seus segredos submersos na imensidão. Efusivamente, os desejos se materializam em cabelos cor de mel ao vento, lábios ansiosos e olhos curiosos. Quando a realidade invade o recipiente vedado que era sua “vida perfeita”, Felipa prefere descobrir o mundo sentindo, e sentindo ela descobre a si mesma.

Assistam e sintam por si próprios :)

8 Respostas leave one →
  1. 2009 Setembro 22

    DA EXTENSA SILHUETA DO ÂNIMO

    Saber, pelo contato com a água, a força interior, pois tudo é teu
    que não te conformas sob o pulso do azar,
    nem sob os lábios de um sevícia
    que não te serve, por óbvia, por pequena em sua substância
    de trigo falso, vem, vamos embora, Istambul é logo ali, Jericoacoara é logo
    ali, veja, sinta que tantos ecos falam dentro de nós, sejamos sempre
    a apostasia, a negação diante do que nos queira tolher
    os passos e os tropassos, e eu repito,
    pasmo e trêmulo, repito
    que continuarei, a exemplo do Quixote, a quebrar moinhos e a morder
    os ventos da agonia sobre a barca dos homens, sim,
    de tudo se faz canção e caução.

    DMC

    Poema escrito especialmente para a Página da ROSÂNGELA.
    Darlan

    • 2009 Setembro 23

      Obrigada, Darlan, pelo poema mais lindo!! Ele fez este post e este blog ainda mais especiais.

      Abração!

  2. 2009 Setembro 23

    Parece ser um filme muito interessante. Também… se não for… vou te odiar por me vender esse “peixe” de uma forma tão maravilhosa. Bjs.

    • 2009 Setembro 23

      Vai me odiar, não, porque tenho certeza de que você jamais esquecerá a experiência de assistir a este filme! Bora apostar??? (hehehehehehhehe..)

      bjo grande, minha borboletinha!

  3. 2009 Setembro 25

    Com essa descrição eu assistiria o filme 200 vezes. Deve realmente ser maravilhoso! Que bom tê-la de volta ao blog!
    Quando você falou do terreno movediço que são as incertezas das nossas vidas lembrei imediatamente de Bauman. Ele fala em seus livros dessa característica tão marcante na modernidade. Os nossos queridos escritores de teor existencialista também questionam essa realidade tão fugaz e incerta…retomando Cecília, é como se perguntar diariamente: em que espelho ficou perdida a minha face?
    Abração!

    • 2009 Setembro 27

      Muito bem lembrados o Bauman, a Cecília e os existencialistas, Marcilio! Adoro Identidade e Modernidade Líquida. O filme também me remeteu a essa modernidade imersa em suas próprias dúvidas. Muito bem lembrado!!!

      Abração, amigo!!

  4. 2009 Outubro 2

    O último parágrafo está tao lindo de bem escrito. Construçao estranha essa…hehehehe…mas é isso.

    caramba, odeio gente falando no cinema, eu mando calar a boca, nao tenho paciência…hehehe

    beijao!

  5. 2009 Novembro 19
    D.Vieira permalink

    O longa À DERIVA é um filme de repercursão internacional…Beleza..>Ainda não tive a oportunidade de assistir o filme, talvez até mesmo me faltou interesse em assistir um filme que usa imagens de um lugar e sai vendendo como se fosse outro…Muitas cenas do filme (como a da foto usada nesta página) foram feitas em Arraial do Cabo – situada também na Região dos lagos – que é considerada o primo pobre de Búzios e Cabo Frio…É uma pena ver que grandes produções preferem vender nomes de quem já está por cima utilizando de belezas e qualidades de um outro lugar…Infelizmente pessoas envolvidas com cinema – profissionais, amadores ou simplesmente amantes – criaram uma aversão ao longa por este fato…A cidade de Arraial do Cabo (onde a cena da foto acima foi gravada..Essas pedras atrás são o Boqueirão, onde sai da costa para mar aberto e para uma ilha, do ponto de vista da Praia da Ilha, uma das mais belas do Brasil e onde situa-se um sítio arqueológico onde foram encontrados sambaquis – de antes do ‘descobrimento’ do país – e onde encontra-se também o antigo Farol construído no século XVII – se não me engano com as datas), também uma cidade turística, não tem nenhuma citação ou crédito por ter sediado as filmagens de um longa de tanta importância..É uma pena que grandes profissionais contribuam com essa injustiça que é feita..Em nosso dia a dia também…Onde empresas turísticas buzianas vendem passeios à Arraial do Cabo como se a cidade fosse continuidade do município de Búzios…As belezas de Arraial são incomparáveis e nós, moradores cabistas, estamos lutando para que a cidade seja reconhecida e que injustiças como a do longa não ocorram mais…
    E que venha o SUDOESTE!!!

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