Traduzindo a Tradução
Fico impressionada com a falta de critério de certos comentários. Algumas pessoas falam do que não conhecem com tanta propriedade que chega até a convencer cabecinhas ainda mais desavisadas. Um ex-aluno meu contou-me da vontade enorme de ler Madame Bovary, e que a falta dessa leitura lhe seria sempre frustrante. Então perguntei o porquê de ele ainda não ter lido. Ele respondeu que não sabia francês. Daí, retruquei novamente, perguntando o porquê de ele não ter lido, só porque não sabia francês. E me veio a grande surpresa: um certo professor dele havia dito que ele só poderia ler Madame Bovary se soubesse francês. Foi então que mais uma vez perguntei: E por que você não compra uma boa tradução? Ele ficou espantado.
É impressionante a ignorância de determinadas pessoas. Não consigo, nem na minha mais profunda imaginação, pensar no que passou pela cabeça do professor desse garoto para dizer-lhe tal coisa. Sim, sim, eu sei do bom em se ler o original, mas por favor… certas coisas são inexplicáveis e só demonstram a falta de experiência de uma pessoa dessa em dizer tal coisa. Já ouvi a mesma frase para colegas em meus tempos de faculdade. Mas daí, a gente pensa: de que vale então o trabalho do tradutor? O tradutor é um profissional seríssimo e especializado no assunto. Traduzir é uma arte tão valiosa que alguns países chegam a importar tradutores do mundo inteiro. A tradução é uma profissão regulamentada por lei. O trabalho do tradutor vai desde a tradução de livros à dublagem e legendas dos filmes estrangeiros que assistimos nos cinemas.
Quando um romance como Madame Bovary é traduzido para o russo, o alemão, o inglês, o português, ele atinge um público cinco vezes maior do que teria apenas no original em francês. O poder da tradução é tão voraz que uma obra assim é aclamada cada vez por mais leitores, conferindo-lhe o status de obra universal. A questão da universalidade dos textos traduzidos nas mais diversas línguas é uma riqueza cultural tanto para o país de origem quanto para os que dispunham de sua tradução.
No Brasil, os cursos de idiomas são caríssimos e restritos a um público ainda muito pequeno. As pessoas escolhem estudar uma segunda língua por vários motivos e quase nunca os certos. É pela moda, pelo status, pela distração, pelas viagens, mas talvez nunca pelo real conhecimento e respeito pela língua e cultura que está aprendendo. Então, caem nas armadilhas do comércio do livro original e terminam por adquirir um bem que jamais será usado. Os livros abrilhantam estantes e raramente são folheados. Uma tradução do original com boa qualidade validaria muito mais o dinheiro gasto com um livro que não será lido.
Presenciei uma situação engraçada na livraria outro dia. Uma moça estava na fila do caixa com uma tradução do New Moon, Lua Nova, da Stephanie Meyer, e a colega que estava ao seu lado comentou que já tinha lido e lido em inglês. A fulana disse que era muito melhor ler em inglês e que talvez a colega não gostasse do livro porque era uma tradução. Não resisti e olhei para trás para conferir a cena patética que a fulana do inglês estava proporcionando à livraria. Em primeiro lugar e sem nenhum preconceito: não acredito que a fulana sequer soubesse de um período completo em inglês porque, pela idade que supus que ela tivesse, a competência para a leitura em língua inglesa ainda não havia se desenvolvido; segundo: não se diz à amiga que está na fila do caixa que ela não gostará do livro que tão graciosamente e apaixonadamente acaba de pegar na prateleira; terceiro: é de péssimo mau-gosto passar na cara das pessoas seus skills, mesmo que sejam verdadeiros (deixemos isso para entrevistas de emprego); quarto: o gosto por livros, seja em que língua for, é coisa particular e intransferível.
Gafes à parte, acho que a amiga da fulana adorou o livro que comprou, mesmo com o comercial negativo da dita cuja. Semana passada, tive a felicidade de comprar a tradução de The Voyage Out, de Virginia Woolf. A Viagem é tradução da majestosa Lya Luft, que por sinal traduziu grande parte das obras de Woolf para o português. Tenho duas versões do original em inglês, mas só de poder ver a Virginia sendo glorificada pela Lya Luft (que eu também amo!) em língua portuguesa é irresistível! Além do mais, quando um aluno que não lê em inglês me pedir uma referência da Virginia Woolf, ficarei orgulhosa de indicar essa magnífica tradução.
Que tal, professores, revermos melhor os nossos conceitos?!













Situação ridícula essa e professorzinho idem. Confesso que vivi situação igualzinha e acredito que a tal figura deve ter sido o mesmo professor. Há alguns meses tentei de maneira frustrada retornar aos meus estudos de pós-graduação. Era um curso sobre as adoráveis peças gregas, especificamente as tragédias. Fascinado por todas as questões que envolvem a dramática me matriculei no curso e qual não foi a minha surpresa quando o professor indicou em sua bibliografia apenas livros em francês. Isso mesmo!!! Para ele, as únicas traduções válidas eram em francês. Espanto geral porque 95% da turma não sabia francês nem grego, inclusive nem o próprio professor sabia o grego e esnobava traduções. Lembro-me de ter comprado, num ímpeto de entusiasmo, uma tradução para o inglês da Enciclopédia Britânica com todas as peças gregas e super animado fui mostrar ao dito cujo professor. Ele mais que imediatamente esnobou o livro em sequer ter a propriedade de saber que ali estavam 4 dos mais respeitados tradutores do grego para o inglês. Todas as aulas ficávamos nós com caras de bobos ouvindo suas leituras e traduções de frases e mais frases do francês para o português. Depois, outros alunos timidamente apresentavam suas traduções em espanhol, eu com a minha do inglês, um outro com a de português de portugal e ele com a “intocável” em francês. Uma atitude tão estúpida como essa me foi fazendo perder o interesse pelo curso e acabei desistindo também em virtude de outros fatores.
Ficava pensando exatamente o que você pensou: onde ficava o enorme esforço e a validade do trabalho dos tradutores nessa hora? Onde fica o papel de professor como mediador e incentivador da leitura, da análise crítica, do pensamento de seus alunos? Invés de motivar ele podava com seu intragável esnobismo. Eu tenho uma máxima em relação à leitura: leio o que me é acessível e não preciso ser poliglota. Assim teria que saber russo, francês, alemão, inglês, espanhol e uma infinidade de outras línguas em que leio. Realmente mais que hora de rever os conceitos. Parabéns pelo post!!!
Rô, esse seu post reflete o clamor de muuuuuuita gente! Gente que ama a literatura e sabe o poder que uma obra traduzida possui de alcançar povos e multidões que anseiam por um refrigério para o espírito. Já me deparei com inúmeros professores e colegas acadêmicos metidos desse jeito e sabe o que eu penso quando me deparo com um? “Coitado… Esse não deve nunca ter experimentado uma daquelas catarses, daquelas explosões que uma obra artística consegue gerar.”
Pode continuar militando! Meu voto é seu!
Oi Rose, obrigada pela visita, ja te adicionei la nos meus links!!!
Olha, prefiro ler o livro, mesmo que com traduçao falha, do que perder uma grande obra!!!
Nao acredito que ainda tem pessoas que digam o contrario!!!
Beijos, Dani
Confesso que tenho preguiça de ler um livro em língua estrangeira.
E não ligo muito pra traduções mal feitas. Eu me envolvo tanto nas leituras que por vezes nem preciso das palavras corretas…
Bjs!
Posso divulgar esse texto entre meus alunos? Nossa, está fantástico.
Amo você bem muito.
Tá perfeito o teu texto. Também acho um erro enorme um professor dizer a um aluno que nao leia algo se nao for no original sendo que o aluno nao sabe o idioma. Um professor tem que estimular a leitura e nao castrar dessa forma.
Claro que ler o original nas exatas palavras em que foi escrito pelo autor é mais interessante e emocionante, mas daí a nao ler porque nao sabe uma língua estrangeira beira à ingnorância mesmo.
é o que você falou: há que se buscar traduçoes reconhecidas e bem feitas, porque existem algumas que sao vergonhosas mesmo, eu vi algumas traduçoes da Clarice Lispector para o espanhol que destruíram a autora, nao era a Clarice que eu conhecia em espanhol. Eu até mandei um e-mail pra editora reclamando.
Vou linkar esse texto pro meu blog “Língua Portuguesa”, tá muito bom, parabéns!
ahahaha”" saiu “ingnorância”, essa foi boa!! ahahahaha
O meu post deu a entender que leio em russo, alemão, inglês, espanhol… Na verdade me referi às traduções que leio. Gosto da literatura universal e não preciso ser poliglota pra me privar do deleite literário.
Rô
Me orgulho cada vez mais de sua sapiência e didática.
linda, vc é demais!
Ah, conheço esse vasinho de gatinhos… ficou bem colado, não foi?
Realmente, é de uma ignorância muito grande. Lê já é também uma obra de arte, de tão raro que é o ato, ainda mais se tivéssemos de saber todas as línguas dos mais variados escritores para ter o prazer de desfrutar de sua escrita e de sua arte. Acabo de ler um livro de um escritor afegão, agora tou lendo de um japonês, já pensou? Sinceramente…
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes.
(Cecília Meireles)