Passaram-se exatos 11 dias após os 11 do início de outubro em que estive aqui. Tudo está bem corrido, a vida achou de dar aquele speed up básico e estou mesmo entrando em hiatus por tempo indeterminado. Talvez só volte aqui no começo de dezembro, talvez no natal. Mas não quero deixar passar em branco uma semana maravilhosa em que completei minhas bodas de trigo, em que comemorei efusivamente o dia do professor e fiquei na iminência de ser titia pela terceira vez.
Minhas bodas de trigo foram maravilhosas!!! Três anos frutíferos na companhia de meu marido querido, meu amigo leal, meu crítico construtivo, meu incentivador, com quem tenho rido muito, discutido metáforas, compartilhado filmes, músicas, emoções, melancolias, confidências e inconfidências. Acho que o Jon e eu aprendemos um com o outro a ser pessoas melhores. Este ano, decidi mexer em parte do guarda-roupa dele e colocar um pouco mais de cor e de natural fibres em sua vida; e ele decidiu que eu deveria ganhar um anel de bodas de trigo, bem lindo, delicado e luminoso, para aplacar minha doce loucura por anéis. Os mimos materiais são lindos, mas o que realmente fica sempre é a certeza de que podemos contar um com o outro até nas mais difíceis decisões e situações.

Daí, vem o dia do professor. Em casa de professor, espeto de ferreiro não é de pau não, viu? Afinal temos nos dedicado tanto a esse doce e amargo ofício, cheio de suas dicotomias e descobertas de todos os dias. Acho que os alunos de hoje não sabem do real valor de se ter um professor. Eu fui uma aluna que amou seus professores incondicionalmente, e os respeitou até graus que não consigo mensurar. Só fui ter professores-amigos na faculdade, e hoje alguns deles são realmente meus amigos-professores, mas nunca perdem a magnitude de seus esforços pela conquista de ensinar e aprender. Tenho alunos brilhantes; tenho alunos que agora são mestres; tenho alunos que estão na pós-graduação alçando voos libertários; tenho alunos que são professores, mas que nunca deixam de ser alunos; tenho alunos amigos e tenho alunos que, no meio do caminho, foram tão decepcionantes que me fizeram pensar se eu realmente gostaria de continuar sendo professora. Mas, no fim de tudo, vejo que essa parcela de decepção é tão pequena, e que essas pessoas são tão sem sementes para semear, tão pobres em certeza do que realmente querem na vida, que fico feliz em enaltecer os que me são brilhantes. Além do mais, como a academia não é mesmo para todos, que sigam-me os bons!
E, daqui a pouco, estarei ganhando meu terceiro sobrinho. Minha irmã está gravidíssima e Mateus está a caminho. Tem sido um momento difícil para ela, porque anda meio indisposta devido ao já barrigão de nove meses. Mateus tentou dar as caras por aqui na semana do dia do professor, mas decidiu mesmo esperar mais um pouquinho, afinal ele nem poderia estar mais confortável e quentinho do que na barriga da mamãe. A gente espera, com muita ansiedade, o tempo do Mateus.
Alguém viu a chuva de meteoros da madrugada? Eu vi umas seis estrelas viajantes e um céu com mais estrelas do que o habitual. Estava lindo e silencioso, às 2:30 da manhã. Não havia uma nuvem sequer para interromper o espetáculo. Acho que, entre às 3 e às 4:00, algo mais entusiástico aconteceu, só que aqui no nordeste os primeiros raios de sol se preparam bem cedo e o céu já fica pouco escuro. Não imaginei que, da minha janela, eu pudesse ter a visão de um céu tão lindo.
Enquanto isso, outros muitos projetos vão saindo da gaveta e tomando forma. Certamente, quando eu voltar aqui, o Mateus já esteja na área e muitas outras coisas novas estejam maturando para eu contar a vocês em primeira mão. Também espero que, no retorno, suas vidas estejam repletas de bonanças e calor humano. Make it work e avante sempre!
Vejo vocês no natal
Já são exatos 11 dias desde que outubro começou e só agora tive um tempinho de passar por aqui e falar sobre ele. Tem tanta coisa sobre outubro que nem sei se lembrarei de falar tudo, mas um pouquinho do que é mais importante já acho que será suficiente, não é? Em primeiro lugar, não esqueçamos jamais que este é o mês da conscientização sobre o câncer de mama. Eu participo ativamente da campanha de conscientização, porque prevenir é nossa melhor arma. Não há indícios da doença nas mulheres de minha família, mas tenho muitas amigas que são portadoras e lutam bravamente contra ela. Nos grupos dos quais participo, ouço muitos relatos tocantes e muitas histórias de tristeza, de dor e de muita coragem para enfrentar os dias de uma doença que tem regras próprias. No Brasil, a campanha nacional acontece em novembro, mas a internacional elegeu o mês de outubro como bandeira de ação em todos os países, e um mês de prevenção para todas as mulheres e homens.

Ainda há muita polêmica e muito receio em se falar sobre o câncer em nossa sociedade. O Brasil é um país que conscientiza pouco, por isso muitas mulheres descobrem que têm a doença já em um estágio muito avançado. Há um exame preventivo muito simples de ser feito, o auto-exame das mamas, que se dedicarmos dez minutos a ele todos os meses, além de conhecermos melhor nosso corpo, ainda podemos detectar problemas em fase inicial. Lembrar sempre que, a partir dos 35 anos, a mamografia é imprescindível e deve ser feita uma vez por ano. Em nosso país, somos privilegiados com os postos de saúde que encaminham para o exame sem nenhum ônus. Basta uma consulta com sua médica e ela encaminhará para o exame. A prevenção é um ato de amor!
Outubro também nos trouxe o nobel de literatura. Há quem conceba o prêmio como um ato esnobe e fútil, mas acho importante que ao menos uma vez por ano dê-se alguma distinção a quem live by the pen, se é que isso é mesmo possível em eras contemporâneas. Para a maioria dos escritores contemplados, o nobel sempre é um reconhecimento de grande distinção, apesar de muitas vezes apresentar-se polêmico e de “esquecer” grandes nomes do cenário literário mundial. Herta Müller, escritora alemã cuja obra retrata realidades excluídas, foi a laureada deste ano. Acho que não temos muitas traduções da obra de Müller no Brasil. Em minhas pesquisas, encontrei apenas O homem é um grande faisão sobre a terra e O compromisso, das editoras Globo e Cotovia. Mas há várias traduções de sua obra para o inglês. Herta é a 12ª mulher a receber o nobel de literatura.
Ainda sobre prêmios, o nobel da paz para o atual presidente norte-americano, Barack Obama, gerou muita polêmica. Nunca vi tanto zum-zum-zum na internet em torno de um mesmo assunto. Bom, tudo que se refere aos Estados Unidos já causa um certo furor, mas a decisão da academia norueguesa de nomear Obama como mensageiro da paz mundial em 2009 foi uma bomba (olha a ironia!) para alguns países e para alguns americanos principalmente. Uma americaníssima amiga minha comentou que o prêmio gerou muita confusão entre os americanos porque, sendo os Estados Unidos um país essencialmente bélico, isso faria com que os investimentos no armamento nuclear (que, segundo eles, é o que protege os Estados Unidos da ameaça constante de uma nova guerra) seriam deixados de lado, afinal Obama meio que seria obrigado a abrir mão de tais investimentos por causa do prêmio. Por outro lado, a academia justificou a escolha dizendo que, sendo o primeiro presidente negro de uma nação em decadência, Obama restaurou o diálogo dos Estados com o mundo e vem acrescentando ações de diplomacia ao poderio norte-americano que podem refletir mudanças significativas no perfil das relações internacionais. O presidente pensou em recusar o prêmio, alegando não ser merecedor de “tão grande honraria”, mas acabou por lisonjear-se com a nomeação, não propriamente pelos americanos, mas pelos chefes das demais nações que apoiaram seu desempenho no bom contato com o mundo. Parece-me que o homem anda tendo uma vida de decisões muito movimentadas desde que ocupou a cadeira frequentada pelo baixo astral do Bush. Às vezes, suceder o caos é algo muito complicado, uma vez que péssimos administradores sempre deixam seus fantasmas, seus resíduos, no lugar onde só fizeram besteira.
Aí, vem o Rio 2016. Boa notícia para os brasileiros? Eu gostaria muito de não ter que emitir uma opinião sobre isso. Não quero ficar do lado das pessoas enjoadas, que colocam gosto ruim em tudo. Mas, gente, o Rio 2016 não tem nada a ver com o Brasil, tá bom?! Tem a ver com o Rio, com a superioridade do Rio, com a política do Rio, e confortado pelos bolsos de toda a nação. Tudo irá girar em torno disso e nós pagaremos um preço alto demais por esse so called maior evento “brasileiro” dos últimos tempos. Por isso, desculpem-me, mas eu pertenço sim ao lado que está feliz, mas que sabe muito bem o que isso tudo irá gerar.
Ainda tem a ameaça de tsunami no nordeste (viram isso?) e o início da temporada dos possíveis indicados ao Oscar, nos cinemas. Ufa! Outubro só tem 11 dias até agora, mas quanta coisa, heim?
E bora para frente que o tempo não para!
Voltei a guardar objetos. Desde que casei e mudei para a nova casa, não tinha ideia de como havia estocado coisas. Minha mãe é a rainha do desapego; para ela coisas materiais vem e vão e devemos evitar tomar gosto ou ter amor por elas. Mas sabem que há coisas que eu sempre quis guardar, mesmo que elas não voltassem a ser usadas? Acho que alguns objetos são tão significativos que se tornam empregnados de nós, e cheiram como nós, parecem conosco, contam a nossa história e falam com outras pessoas como se fossem nós.

Tenho muita dificuldade em me desfazer de livros antigos, por exemplo. Até sei que não há estantes suficientes para novos livros, porque os que já foram lidos continuam lá, organizados e exalando o meu perfume e impondo-se como se fossem eu. Aprendi com meus pais que os livros que já lemos devem ser doados, passados adiante, antes de se empregnarem de nós. A hora de selecionar o que vai e o que fica é sempre dolorosa, mesmo que a consciência de que aqueles que receberão certamente os amarão tanto quanto eu persista.
Depois, vem a coisa de dizerem que objetos guardados são inutensílios. Mas todos temos nossas gavetas de “inutensílios” em casa, não é verdade?! Se objetos e coisas fossem realmente inúteis, muitas pessoas não fariam questão das “inutilidades” dos que se foram. Há sempre o que herdar e o herdado povoa, novamente, um espaço nas nossas gavetas e na nossa vida. Cada vez que o acessamos, não acessamos apenas a sua materialidade, mas tudo o que nele conta a história de uma outra pessoa. Por isso chamamos nossos objetos de nossas coisas; por isso as pessoas têm tanta curiosidade nas “coisas” das outras. Não há nelas apenas beleza, particularidade ou diferença, mas sim um pedaço de nós gravado nos seus detalhes mais minuciosos. Desse modo, é difícil nos desfazermos delas. Vamos guardando, guardando tudo, até que possam ser herdadas por alguém que também ache importante conservá-las.
E de objetos materiais a objetos sentimentais, vou estocando caixas de coisas e caixas de sonhos, esperando que, ao serem abertas, elas possam exalar um pouco de minha consciência, um pouco dos meus sentimentos, minhas palavras, devaneios e desassossegos, esperanças e alegrias.
Os dias não tem sido fáceis por aqui porque, com a chegada do fim de ano, muita coisa começa a querer terminar e os prazos vão se estreitando. Acho que o Jon e eu ficamos enclausurados aqui em casa ao menos por duas semanas seguidas, com afazeres acadêmicos para ontem. Houve fins de semana que não coloquei a cara na rua, avalie o bloco. Tanto compromisso, tanto trabalho, tanto tudo acabou por tirar um pouco do ânimo de nossas rápidas fugidelas para respirar ares poluídos e comer besteiras. De quebra, ele ainda ganhou uma infecção na garganta e eu uma alergia a pólen, mas não consigo detectar a flor vilã mais próxima (notaram como aqui elas estão cada vez mais raras?!), porque flor no nordeste nem de cactus.

Daí, decidimos corromper o fim de semana. Fomos ao cinema, na expectativa de relaxar mesmo e rir das conversas sem-futuro nas filas da frente e detrás de nós. De repente, todo mundo virou crítico de cinema, que graça! E apesar do zum-zum-zum de uma “crítica” muito desavisada e descomedida que sentou na fila detrás de nós, empanturrou-se de pipoca e de sei lá mais o quê e falou durante todo o filme, À Deriva nos tocou bastante. Fiquei pensando em como tudo está realmente à deriva na vida. Do que temos absoluta certeza? Vocês já tiveram a impressão de que de repente todos os terrenos se tornaram movediços? O que realmente é definitivo na vida? Muita gente poderia dizer que a morte o é, mas depois concordaria de que ela é muito mais inevitável do que definitiva, certo?
O novo trabalho do diretor Heitor Dhalia (de Nina e o Cheiro do Ralo) emociona pela certeza que temos de que não temos certeza de nada. A vida, as pessoas, a família e os sonhos de uma meninice tão suave se tornam, de repente, uma onda de mar que se dissolve na areia e tudo transforma. Diria a minha doce Cecília Meireles que “a realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”, palavras que poderiam descrever muito bem a Felipa (Laura Neiva), tão cheirosa, tão menina e tão mulher, enfrentando a transição para uma vida adulta em meio ao desmoronamento do casamento (que para ela é muito mais o desmoronamento do amor) dos pais. Felipa não compreende o que, no meio do caminho, ficou perdido. Para ela, uma parte muito pungente do livro que conta a história de sua família ficou em branco. E o que resta depois que as páginas em branco são arrancadas é a passagem para um novo capítulo, agora escrito por ela.
Adorei os silêncios do filme. Adorei a eloquência do não dito e a necessidade de aguçamento do olhar. Muito das emoções que estão dentro de nós são mesmo silenciosas e aplacadas pelos pés descalços na água, na terra granulada, na suposição de que o que segura o mar na Terra são os corais cor de turquesa, com seus segredos submersos na imensidão. Efusivamente, os desejos se materializam em cabelos cor de mel ao vento, lábios ansiosos e olhos curiosos. Quando a realidade invade o recipiente vedado que era sua “vida perfeita”, Felipa prefere descobrir o mundo sentindo, e sentindo ela descobre a si mesma.
Assistam e sintam por si próprios
Amar o perdido deixa confundido este coração.
Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não.
As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão.
Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão. (Drummond)

Meu adorável avôzinho libertou as amarras que o prendiam a este mundo, hoje, no dia da Independência. Ele nasceu na virada do ano novo de 1918. Faria 91 anos, neste ano novo. Ai, difícil não sentir saudade e não sentir tristeza e não sentir conforto por ele, afinal sofria (e sofria muito) de hipertensão pulmonar há alguns meses, uma doença rara e muito voraz, que sufoca e dilacera o corpo e as esperanças… a dor dele findou e ficou a nossa; a dor da saudade. Ficam também as lembranças bonitas de uma vida plena e, senão feliz, ao menos muito bem vivida.
Agradeço as palavras de vocês, meus amigos, no post anterior a este, que me trouxeram muito consolo e muito afago. Tenho certeza de que o tempo maior que ele ficou conosco foi concedido pelas orações calorosas e confortadoras de vocês, que estão sempre aqui, ao meu lado. Eu agradeço muitíssimo e meu vôzinho também, porque o caminho dele estava decerto muito iluminado. Muito obrigada!
Vou me ausentar por umas semanas. Preciso de tempo e de silêncio…
Paz a todos!

É setembro na área, gente, e não adianta mais se admirar e perguntar: já?! É, já! E eu adoro setembro, porque ele tem um perfume diferente, ocre, aveludado, amadeirado, rosa. Não é só por causa da primavera, mas por causa dos ares mesmo. Tudo muda, tudo fica diferente, clarinho; tem luz, tem gente linda e bronzeada na rua, tem um lindo entardecer e noites pratas, com direito ao reflexo da lua namorando o mar e tudo.
O mês novo também é bom porque a transição entre o primeiro semestre e vindouro já passou. Tão bom! Tão bom saber que tem-se que andar para frente, afinal, o que vem depois é o que rege a nossa vitalidade do seguir adiante. E já nos bastam os dias quentes que trazem à pele um toque de saúde e o vento sorrateiro e bagunceiro que sopra pétalas em nossos cabelos, refresca e alivia os nossos sonhos e anseios, e aporta em nossa mente navios cheios de gratitude e apreço, novos planos, novos tempos.
Então, é hora de fazer aquele upgrade nos livros, no computador, nas gavetas dos armários, arrumar a vida e reorganizar o coração. Hora de desencaixotar o arsenal de música feliz e emoldurar os sonhos com pensamentos positivos e esperanças eloquentes. Setembro não é Paris, mas é também uma festa!
Amem, cantem, curtam, experimentem das frutas mais doces e das águas mais límpidas. Façam amigos, comprem flores, aproveitem os doces, sorriam e renovem (a cabeça, as assinaturas de revista, o guarda-roupa, o papo). E, claro, falem das flores, por favor
Bom setembro a todos!
Que livro é você?
Se você fosse um livro nacional, qual livro seria? Um best-seller ultrapopular ou um relato intimista? Faça o teste e descubra.
Olhem que legal o meu resultado:

“A paixão segundo GH”, de Clarice Lispector
Você é daqueles sujeitos profundos. Não que se acham profundos – profundos mesmo. Devido às maquinações constantes da sua cabecinha, ao longo do tempo você acumulou milhões de questionamentos. Hoje, em segundos, você é capaz de reconsiderar toda a sua existência. A visão de um objeto ou uma fala inocente de alguém às vezes desencadeiam viagens dilacerantes aos cantos mais obscuros de sua alma. Em geral, essa tendência introspectiva não faz de você uma pessoa fácil de se conviver. Aliás, você desperta até medo em algumas pessoas. Outras simplesmente não o conseguem entender.
Assim é também “A paixão segundo GH”, obra-prima de Clarice Lispector amada-idolatrada por leitores intelectuais e existencialistas, mas, sejamos sinceros, que assusta a maioria. Essa possível repulsa, porém, nunca anulará um milésimo de sua força literária. O mesmo vale para você: agrada a poucos, mas tem uma força única.












